Abramos el cesto del sagrado saber
Que hablen nuestros ancestros
Dejemos sonar los cantos y rezos ancestrales
Que nos guíen por los caminos de La paz
E La compresíon entre los hombres

26 dezembro 2010

Círculos Sagrado de Visões Femininas - Jan/2011

Cerimônia Ayahuasca - Janeiro 2011


Queridos, nosso irmão Max Mello passará dois messes no Chile, aproveitem janeiro para estar com ele nesta bela Medicina.

23 dezembro 2010

22 dezembro 2010

Cultura Yawanawa no Rapa Nuy

Gente bonita,
em fevereiro receberemos a visita do Pajé Yawa Kuni, da tribo Yawanawa do Acre. Acompanhem a agenda, teremos oportunidade de conhecer a vida cotidiana, as lendas e tradições culturais do povo Yawanawa e também compartilhar da sabedoria e ancestralidade deste povo do Acre, o coração da floresta amazônica, nas pajelanças (cerimônias espirituais) realizadas por Pajé Kuni.
Dias 21 e 22/02 o Pajé estará atendendo individualmente no Espaço Rapa Nuy e aplicando as Medicinas do Kambô e Sananga, agende-se.


Para quem quiser conhecer um pouco da beleza deste povo, clique no link abaixo:
www.marcoslopes.com.br

Sobre os Yawanawás

Pajé Yawa Kuni

Imagens da Aldeia Yawanawá:
http://www.flickr.com/photos/54657646@N06/show/


O Povo Yawanawá é tradicionalmente um povo mais caçador que pescador e em suas terras sempre há fartura de proteína animal. Dentro de uma tradição de total respeito 
pela natureza, seus caçadores fazem caçadas coletivas ou individuais e suas caças preferidas são a anta, o veado, o porquinho (catitu) e o queixada. E também algumas 
aves, muito apreciadas pelas mulheres índias, como as nambus, cojubins e outras. O milho é muito apreciado. A macaxeira reina soberana, cozida, assada, em forma 
de farinha, como caiçuma está presente no dia a dia.
Se por um lado, o cacique Bira foi escolhido para dirigir o povo Yawanawá, devido à sua bagagem espiritual e está também preparado para agir no ‘mundo do branco’,
 o povo Yawanawá é o povo que todo chefe pediria a Deus. Os índios não discutem asperamente, conversam sempre amigavelmente, não perdem o tempo com besteiras nem
 com conversas inúteis. As crianças são extremamente educadas, não vivem com molecagens, estampam felicidade nos olhos em suas brincadeiras, não mexem nas coisas
 de ninguém. Na aldeia sagrada não entra televisão. Bebida alcoólica – nem pensar – é expressamente proibida, isto tudo já a partir da aldeia Nova Esperança.
Para o povo Yawanawa, os sonhos são tão importantes como a vida ‘acordada’ ou mais. É o momento de conversar com Deus.

A nove anos é realizado o Festival Yawanawa - uma semana de cantos danças, pajelanças, integração, sorrisos e felicidade. O festival reuni todas as etnias do povo pano num grande encontro cultural na aldeia Nova Esperança, e sempre tem lideranças espirituais do mundo a fora inclusive de outras linhas como o Budismo. Em 2010 o convidado foi o líder Lakota Vernon Foster que pôde mostrar a sua cultura através de palestras, Cerimônia de Temazcal e de danças no terreiro para o espírito do Sol. Vernon em alguns momentos também tomou o Uni (Ayauaska) e trabalhou espiritualmente na força do cipó. Para o décimo festival que será em Outubro de 2011 Biraci quer trazer um líder de cada etnia das américas. O Festival Yawanawa é um tempo de brincadeiras e descanso onde todos param os trabalhos por uma semana para celebrar a sua cultura.

Mensagem do Biraci Nishiuaka Pajé e Cacique dos Yawanawas 

“A floresta preserva a nossa vida e garante nossa sobrevivência. Precisamos ter muito cuidado com ela. É difícil de cuidar de um território devido à pressão
 nacional e internacional.
Desenvolvimento para o homem significa sacrificar a floresta. Vamos resistir enquanto tivermos força. Vocês (brancos) são convidados a participar do movimento de preservação
 da natureza, somos os jardineiros deste jardim natural”.

Uni - histórico
No dia 22 de fevereiro de 2009, um domingo, o cacique pajé Bira fez o primeiro trabalho com Uni na aldeia sagrada (terra onde se originou o povo Yawanawa), depois de ter sido interrompido por 27 anos. Ele convidou 
27 pessoas, a maior parte de extrativistas e agricultores da região de Rodrigues Alves e do Rio Croa, todos daimistas, quatro estrangeiros, estudantes de várias
 linhas da bebida Ayahuasca. Foi um trabalho muito especial de muita abertura espiritual e de muita importância dentro do alinhamento espiritual Yawanawa que se segue até hoje.
Foi feito um grande feitio também com os convidados. Para o cacique Biraci é este tipo de convívio que ele quer daqui para frente. Amigos que o ajudem a reconstruir a aldeia sagrada, junto com seu povo. Bira ficou
 especialmente satisfeito, pois é seu desejo que cada vez mais os Yawanawá se voltem para a tradição do Uni e durante os dias de feitio, até alguns índios que nunca 
tinham bebido Uni, tomaram e gostaram. No momento não resta dúvidas na aldeia de que o povo branco é irmão, quase como se fosse outro povo indígena e, aliás, 
o sangue índio corre nas veias da maioria deles. Segundo Bira não interessa receber na aldeia sagrada pessoas com preocupações financeiras ou políticas, isto fica para a
 Nova Esperança. “Na aldeia sagrada só queremos quem nos alimente o espírito. Aqui é nossa aldeia mãe. Olha a floresta. Debaixo dela habita um povo. Aqui andamos 
e vivemos como o criador nos criou. Tudo começou aqui” – disse.

A linha Yawanawá

Antonio Luiz tinha em sua língua original oito nomes. É costume Yawanawá chamar as pessoas por vários nomes, como forma de homenagear os mais diversos parentes seja
 a mãe, o pai, os tios, as tias, etc. Segundo alguns cálculos, ele viveu 116 anos e dirigiu o povo por 107 anos. Como chefe espiritual recebia cinco guias. Biraci
 está trabalhando para receber os mesmos guias, um pedido especial que fez ao mestre espiritual e já vem sendo orientado por eles. O pajé mais velho da aldeia é o 
Yawarani, chamado simplesmente por Yawá. É pajé desde os 50 anos e hoje tem cerca de 90. Ele canta – e muito bem também, mas suas especialidades são a reza e os
trabalhos com as plantas medicinais. É uma relíquia viva e suas rezas na língua nativa, acompanhados de sopros, são requisitadas por todos. Também recebe duas entidades.
 Outro pajé cantador, Tatá, mora numa aldeia do baixo rio. Hoje a Aldeia Sagrada tem um guardião físico e espiritual é o Pajé Yawa Kuni Filho do patriarca e maior da tradição senhor Antonio Luiz. Kuni também é o responsável espiritual pelos trabalhos no terreiro da Aldeia Nova Esperança. Kuni é a mais pura expressão da humildade e do amor, e também é um grande curandeiro.

Muitos dos cânticos tinham se perdido e o cacique Bira é o canal donde eles vêm sendo resgatados. No ano 2000 recebeu o cântico ‘Kanarô txereeteintê’, durante trabalho 
com Uni, ocasião em que o próprio Yawa chorou de emoção. É um hino à criação, fala da arara amarela (Canindé), o pássaro que voa mais alto da espécie, sai de casa 
e voa para comer em outros rios, levando a mensagem de sua existência e volta para dormir em casa. Para Biraci o hino é também o símbolo da nova era em que o povo
 está entrando e simboliza as boas vindas a todas as manifestações de Deus no planeta Terra. Um grande presente no mariri do Uni para um convidado é escutar o hino 
do Kanarô e ver inserido nele seu nome, como um chamado de boas vindas. O trabalho do Uni conduz às luzes, às mandalas coloridas e tantas belezas.

FONTE: Bia Labate

20 dezembro 2010

A despedida de um grande líder

Felipe Milanez/Terra Magazine
(Raimundo) era um artista que reconstruiu a arte antiga de seu povo
"(Raimundo) era um artista que reconstruiu a arte antiga de seu povo"

Felipe Milanez
De Manaus (AM)

A noite chegou triste na Amazônia nessa madrugada. Estava uma noite clara, com a lua cheia impondo-se entre as nuvens, dando mais volume para a escuridão. Olhei pro céu e não vi estrelas - deviam estar reunidas, pensei. Era, provavelmente, o mesmo céu que deveria acompanhar o rio Amazonas em direção ao Oeste, no sentido inverso em que escorrem suas águas, até aproximar-se da cordilheira dos Andes. Um mesmo plano, mesmo brilho, e mesma tristeza. A tristeza que eu sentia, no entanto, não parecia estar lá, nem na floresta que me cercava, onde vivem os espíritos. Estes, imagino, estavam celebrando a chegada de uma pessoa muito especial, alguém que desde pequeno aprendeu a frequentar o universo espiritual como poucos: Raimundo Luis Yawanawa. Seu filho, Joaquim Tashka, me ligou para dizer: "estamos muito triste, papai está fazendo a passagem".

Raimundo lutava contra um câncer fazia alguns anos. Lutou bravamente, até conseguir receber todos seus filhos para despedir-se, em Tarauacá, no Acre, cidade próxima da Terra Indígena Rio Gregório, onde vive.

Filho de Antonio Luis, o yawanawa que primeiro teria pacificado os brancos que invadiam seu território, Raimundo conduziu seu povo durante o período violento da ditadura militar no Acre, da ocupação escravagista dos seringais, e do drama da opressão que viviam das missões cristãs que proibiam que os rituais fossem praticados.

Era um artista que reconstruiu a arte antiga de seu povo. Através de visões em rituais de uni (ayahuasca), ele soube interpretar os mitos e cantos antigos para fazer renascer a arte de seu povo. Certa vez, quando visitei sua aldeia, ele me mostrou o ateliê onde esculpia lanças, tecia lindos cocares, e meditava sobre a existência do povo yawanawa em um mundo hostil que os cercava.

Raimundo liderou seu povo a se impor frente a esta sociedade que queria envolve-los, exterminando a cultura e transformando os yawanawa em simples mão-de-obra escrava, saqueando o território. Foi quem preparou seu sobrinho Biraci Brasil que, quando jovem, junto de seus primos Nani e Sales (o mais velho dos 19 filhos de Raimundo), a ir para Rio Branco, conhecer a sociedade branca que enviava os seringalistas para oprimirem. Com a luta destes jovens, expulsaram os patrões, retomaram o território.

Raimunda Putani e Kátia Hushahu, duas filhas de Raimundo, foram as primeiras pajés do Acre. Quebraram regras tradicionais do povo, reconquistando antigos ensinamentos guardados por Raimundo e os pajés Tatá e Yawa, e se impuseram frente ao domínio machista da sociedade ocidental para reescrever a relação com o mundo espiritual.

Tashka, o filho que Raimundo preparou para liderar seu povo, é fluente em inglês, português, e fala também espanhol e yawanawa. E um dos lideres indígenas mais influentes do Brasil no exterior. Aprendeu com seu pai a defender, intransigentemente, seu povo.

Os yawanawa estão de luto. "Mas nossa luta continua", diz Bira. Tashka, há alguns anos, já temia pela possível perda de seu pai quando foi diagnosticada a doença. Passou a filmar os encontros com seu pai, a luta espiritual que travavam, junto de Tatá, para ajuda-lo a enfrentar os males. Em seu blog , descrevia sua luta e seu carinho: "Tata e eu estamos numa jornada espiritual, um trabalho forte dedicado a recuperação do meu pai", escreveu em um certo momento.

Jovem líder político influente, fala inglês, espanhol, português e yawanawa, Tashka estava sendo preparado por Raimundo para liderar os desafios que seu povo enfrenta para manter-se unido e seguir sempre yawanawa.

No inicio do ano, Tashka e Raimundo fizeram uma jornada espiritual. "Passei o final de semana meditando e fazendo Uni com meu pai e o Macilvo. Melhor, não sei fazer Uni. Macilvo e eu estávamos aprendendo com meu pai como fazer Uni. Meu pai já estava sentindo melhor das dores que vinha sentindo. Para mim foi um previlégio ter meu pai me ensinando como colher, bater, tirar o cipó e cozinhar o Uni, retirado do quintal da minha casa. O cipó foi o Tucuni, uma qualidade de cipó muito forte e respeitada pelos Yawanawa, o Tucuni é cheio de nó, segundo nossos ancestrais ele nasceu a partir da junta do braço do grande chefe, que depois de sua morte, surgiram todas as qualidade de cipó. E a chacrona, é o Kene Kawa, a rainha das folhas, que trouxe do Buriti, onde os antigos pajés Yawanawá tomavam. O Kene Kawa traz visões muito forte e iluma nossa jornada espiritual".

Raimundo era a biblioteca dos yawanawa. No processo de demarcação da terra, era através da memória de Raimundo que a Funai conseguiu reconstruir a história yawanawa. "Nós sempre vivemos nesse território, todos os nossos ancestrais", ele dizia.

Raimundo era um arquivo de histórias, me explicou uma vez José Carlos Meirelles, um dos maiores sertanistas do Acre. Quando ia na aldeia, ele gostava de "sentar na rede, tomar uni e ficar ouvindo histórias do seu Raimundo".

Um grande contador de histórias é um grande conhecedor. A força da memória oral dos grandes contadores de histórias pode surpreender um ocidental desavisado. Eu, pensei comigo numa roda de conversas com Raimundo, não consigo lembrar nomes de parentes três gerações antes da minha. Bisavó, tataravó, seria preciso perguntar a alguém. Raimundo poderia divagar sobre gerações e gerações, contar detalhes de batalhas que ocorreram a 200, 300 anos, nomeando uma porção de parentes que, em linha direta, poderia ultrapassar 10 gerações. Meu bloco de notas ou meu gravador, onde eu tentava esquematizar um pouco da sabedoria de Raimundo, pareciam joguinhos infantis.

Um "homem de Conhecimento", shinaiá, Raimundo transitava entre o universo espiritual e a realidade mundana. Deixou quase 20 filhos, dezenas de netos, e o povo yawanawa forte, unido. Yawa, na língua pano, quer dizer porco queixada. Nawa, é povo. É o povo que vive junto, como uma manada de porco queixada.

O povo Yawanawa perdeu uma de suas maiores lideranças, política e espiritual. Os índios da Amazônia perderam um de seus mais íntegros representantes. O Brasil, mais uma vez, assistiu a passagem de um grande brasileiro, que não teve aqui o reconhecimento que o pais mereceria lhe conceder. E fica um país mais pobre, com menos brilho, com menos conhecimento de si mesmo.

Raimundo, junto de outros shinaiá, agora repousa no mundo espiritual.

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

Fale com Felipe Milanez: felipemilanez@terra.com.br

FONTE: Terra Magazine