Abramos el cesto del sagrado saber
Que hablen nuestros ancestros
Dejemos sonar los cantos y rezos ancestrales
Que nos guíen por los caminos de La paz
E La compresíon entre los hombres

01 março 2011

Yawanawa: Registros do VIII Festival Yawa

Textos: Flaviano Schneider Fotos: Onofre Brito
Interação com outras tradições religiosas

"Desde a abertura em fevereiro de 2009 da Aldeia Sagrada, onde hoje está localizado o Centro de Formação e Memória do Povo Yawanawá, Biraci manifestou interesse em interagir com outras manifestações espirituais do planeta.

Neste festival além do Santo Daime estiveram presentes pessoas que cultivam outras linhas como União do Vegetal, Xamanismo, ayahuasqueiros independentes. Até um monge, com seu traje cor alaranjado, participando das cerimônias, dançando e brincando como um menino apareceu por lá. Trata-se do monge Dada Suvedananda, nascido nas Filipinas e responsável na América do Sul pela organização Ananda Marga, que está presente em 145 países do mundo, promovendo treinamentos e ensinando práticas milenares de Ioga e meditação. Dada trabalha com Ioga espiritual. Há 38 anos, pratica meditação e hoje medita quatro vezes por dia, totalizando cerca de três horas diárias. Viveu durante doze anos na África onde morou em 30 países. Há nove anos veio para a América do Sul residindo atualmente no Rio de Janeiro. Para ele, espiritualidade é comunidade e o dia a dia dos Yawanawás mostra o quanto eles são elevados espiritualmente.

Do Norte do México veio a cerimônia do Temascal (sauna sagrada) trazida pelo índio Teska, do povo Quatitil, descendente dos Aztecas. Ele nasceu em São Luis Potosí, santuário do peiote (planta sagrada dos índios norte-americanos e mexicanos) e apresenta a cerimônia juntamente com Adriana, a esposa brasileira. Teska conta que o Temascal é praticado pelos índios do Norte do México e Sul dos Estados Unidos (os peles-vermelhas), havendo registros em cavernas de sua existência há 40 mil anos atrás.

No terreiro da aldeia Yawanawá foi montada a barraca de forma circular da sauna sagrada e durante todos os dias aconteceram sessões do Temascal, sempre acompanhado de cânticos apropriados, alguns da tradição original Quatitil. Segundo Teska, a barraca representa o útero materno, o retorno à vida intra-uterina. Também representa a noite de onde se sai para o dia, purificado. Do lado de fora da barraca é acesa uma fogueira na qual são colocadas pedras de três a cinco quilos até ficarem vermelhas. Estas pedras são colocadas no interior da barraca, bem no meio, e sobre elas primeiro são colocadas ervas aromáticas e medicinais – que espalham calor e perfume ao ambiente – e depois é derramada água sobre as pedras o que provoca um forte vapor de água que enche todo o ambiente.

Este procedimento é feito quatro vezes. Durante cerca de uma hora, 20 pessoas adentram à tenda. O calor é quase sufocante e o suor escorre em bicas. Enquanto isso, são entoados cânticos, qualquer um podendo participar. No final um banho no rio Gregório e uma agradável sensação de descarrego e leveza. O Temascal é uma pré-cerimônia ao uso ritual do peiote, adaptando-se perfeitamente como pré-cerimônia ao Uni ou Daime.

Brincadeiras e danças: o motor do festival

O Festival Yawa tem duas partes distintas: a lúdica e a espiritual, ambas sempre acompanhadas de canções. É preciso dizer que os Yawanawás são afinadíssimos, as vozes são maravilhosas e os cânticos, belíssimos. Algumas canções são cantadas apenas nas brincadeiras e danças, outras somente nas cerimônias com Uni e, finalmente, algumas são comuns aos dois momentos.

As brincadeiras e as danças são o motor do festival. Elas ocorrem durante todas as manhãs até meio-dia ou mais e, à tarde, a partir das quatro horas mais ou menos, e entram noite adentro. Algumas lembram as brincadeiras de roda, outras são específicas, sendo as mais notáveis as brincadeiras/danças: do lançamento do bastão, do jabuti, das abelhas, do macaco prego, do urubu, do morcego, da cana, do mamão, do peixe-boi, do carapanã, do sapo, entre tantas outras.

Elas são puxadas pelo incansável pajé Yawa, pelo Biraci, o velho Tatá, as duas irmãs pajés Putany e Ushahu, outros adultos e até por jovens como Xaneihu, filho de Biraci, estudante de administração na capital acreana e um dos líderes que despontam na nova geração de índios acreanos.

Nani Yawanawá é um dos maiores líderes entre os Yawanawá. Ele e a esposa Fátima administram a aldeia Nova Esperança. Fátima é a grande animadora, sempre convidando todos a entrarem na roda. Nani explica que as brincadeiras não se destinam à diversão simplesmente. Elas vão além, tem um significado e um proveito que se tira dela. Ele conta que a brincadeira do lançamento do bastão (que hoje é feito com madeira bem leve) representa como os guerreiros eram escolhidos no passado para a guerra. Os guerreiros tinham que mostrar habilidade para pegar no ar a lança atirada contra ele e no mesmo ato devolvê-la contra o oponente, só assim iriam para a guerra. Na escolha original, os guerreiros Yawanawás usavam não um bastão, mas uma lança de verdade, de guerra.
Na brincadeira do peixe-boi, os índios fazem uma espécie de desafio. Dois deles vão para o meio da roda, cada um deles munido de um talo de folha de bananeira, de aproximadamente dois metros e após alguns passos desferem uma forte chicotada com o talo nas costas do oponente. O estalo é forte e dependendo costuma deixar uma mancha cor de sangue. O índio Aldaíso Yawanawa (Viñu), que é universitário em Tarauacá e participa da coordenação da festa conta que a brincadeira é uma hora de tirar as mágoas de um para o outro. Um índio que não esteja gostando do seu cunhado, da maneira como ele trata sua irmã, pode ser desafiado. As mulheres também tiram suas diferenças na ocasião. Depois das lapadas os oponentes saem abraçados demonstrando que as mágoas acabaram ali. Conta Aldaíso que antigamente os índios utilizavam para as lapadas outros tipos de chicotes como o talo de buriti trançado, o cipó Ruti, que é duro e cheio de nós, ou o couro de anta curtido. “Era escutar o estalo e ver o sangue descer” – disse. Ele adianta que no próximo festival os chicotes tradicionais começarão a ser reintroduzidos.

A fotógrafa Livia Buschele, que está fazendo um livro de fotografias sobre o povo Yawanawá, conta que no início ficou um pouco inibida de entrar nas brincadeiras, mas depois viu que os índios têm o maior prazer em ver os visitantes na roda, o que a animou a brincar também. Foi o que se viu todos os dias, índios, brasileiros, estrangeiros, homens, mulheres, crianças e velhos girando a roda da alegria das danças Yawanawás, cantando canções maravilhosas e sentindo a satisfação de simplesmente brincar.

FONTE:

Publicado no página 20, aqui: http://www.pagina20.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=10226&Itemid=14