Abramos el cesto del sagrado saber
Que hablen nuestros ancestros
Dejemos sonar los cantos y rezos ancestrales
Que nos guíen por los caminos de La paz
E La compresíon entre los hombres

10 fevereiro 2012

QUECHITXO - Cantadores que Curam

As sociedades indígenas utilizam-se de diversos métodos que auxiliam na cura de doenças. Existem os pajés, que tratam de certas doenças através de transes espirituais; Há os que se utilizam de plantas medicinais, outros que enxergam as causas de alguns males através de sinais da Natureza, e hoje em dia existem muitos enfermeiros indígenas com conhecimento da medicina do homem branco. Entre os índios MARUBO existem canções que curam.

O povo Marubo vivem na bacia do rio Javari, no sudoeste do estado do Amazonas. Sua cerâmica está entre as mais sofisticadas produzidas no Brasil: e leve e em certas ocasiões decoradas com uma impressão em negativo. Depois que as peças são queimadas, as mulheres desenham elementos geométricos nas cerâmicas utilizando uma argila esbranquiçada, diferente daquela utilizada na construção da peça. As cerâmicas são então colocadas sobre um fogo brando que as deixa negras, com exceção dos desenhos feitos com a argila mais esbranquiçada que é retirada da peça após o esfriamento.

Entre os Marubo, os indivíduos especialistas em entoar os cantos que curam são chamados QUECHITXO.

Antes dos cantos, os quechitxo preparam-se tomando o chá da ayahuaska e inalando um tipo de rapé. Depois, colocam o doente deitado em uma rede e sentam-se em volta dele, em banquinhos. Então, cantam curvados, com a mão direita sobre o joelho esquerdo e a cabeça apoiada na mão esquerda. São canções longas, entoadas a qualquer hora do dia e da noite, com intervalos de descanso, enquanto durar o período de crise mais aguda da doença. Nem todos os índios que cantam junto ao doente são quechitxo, alguns cantam apenas como auxiliares destes especialistas.

Há ocasiões que os quechitxo cantam sobre a boca de uma panela com mingau de banana, que será depois tomado pelos doentes como remédio. Este mingau é ingerido também pelos demais membros da comunidade como prevenção contra certas doenças e até mesmo para evitar mordidas de cobras. Os índios Marubo explicam que quando os quechitxo cantam, aproximam-se os espíritos REWEPEI, ONISRÃCO e SROMA.

O espírito Rewepei vai atrás da alma do doente e tenta convencê-la a permanecer no corpo. Os Marubo acreditam que seus pajés possuem uma taboca de guardar rapé dentro da garganta. A voz grave e volumosa surge quando esta taboca está destampada e a voz fina é sinal da taboca tampada. É também o espírito Rewepei quem coloca esta taboca na garganta dos pajés.

O espírito Onisrãco é o espírito da ayahuaska. Ele fica ao lado dos cantadores e canta junto com eles. Pode se transformar em diversos seres, como a onça, um pássaro, o fogo, o vento... O espírito Onisrãco é como o soldado que briga com a doença

Os espíritos Sroma são dois espíritos femininos que também lutam contra a doença. "Sroma" significa "seio" na língua dos Marubo.

Os cantos de cura dos índios Marubo dividem-se em três partes: (1º) como se forma o agente que originou a doença, (2º) como este agente atua no corpo da vítima e (3º) como este mal é combatido. Julio Cezar Melatti recolheu um canto contra mordida de cobras.

Ele começa pela narração de como surgiu a cobra, a partir da cabeça de um sapo morto; dois pingos de
fogo formaram os olhos da cobra; os venenos de um outro sapo e o leite de uma taboca formaram o veneno da serpente. E, por fim, o frio da terra e o calor de um terceiro sapo foram colocados também dentro da cobra. A segunda parte do canto conta como a cobra se coloca no caminho da vítima e como o indígena que é mordido fica com o calor da cobra na cabeça e o frio da terra nos pés.

A terceira parte conta então como a cobra e seu veneno são combatidos. As duas Sroma e Onisrãco vêm cuidar da vítima. A cobra é espantada com fogo. As Sroma dão saúde à vítima; a saúde vai passando pelo corpo, tirando o peso do corpo, o escuro dos olhos, o veneno da cobra. A fumaça também espanta a cobra, jogando-a para fora do corpo da pessoa mordida. O vento da saúde leva a cobra por cima do mato. O cheiro doce da ayahuaska passa por dentro da cabeça do paciente, tirando a dor. A saúde desce para a barriga, curando. O frio da água, o frio da pedra, o frio da terra, o frio do pau, o frio da ayahuaska, entram no corpo da vítima; quando o frio da cobra vai embora; o espírito da ayahuaska (Onisrãco) corre atrás dela com o terçado, cortando-a. Ele tira do corpo da vítima o veneno, o dente, o pelo da cobra.

No cântico ainda se citam outros elementos que vêm socorrer o paciente: o azedo, o sangue da árvore, o sangue da ayahuaska. Convém notar que no cântico os efeitos da mordida da cobra são confundidos com a própria cobra ou com partes do corpo dela.

Baseado em texto de Julio Cezar Melatti
Boletim da Iandé, nº 24
Fonte: Chakaruna